Olá!

Hoje iniciamos a série “Textos dos leitores”. O intuito é compartilhar textos variados de escritores/leitores em geral.

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Vamos juntos lutar pela disseminação das obras nacionais.


ARAPUCA

homem criminosoQuando ele entrava no bar, Cibele já sentia seu perfume. Aroma amadeirado misturado com sândalo. Ele era alto, olhos grandes, ar misterioso. Pedia sempre a mesma bebida: whisky com duas pedras de gelo. Ficava sentado numa mesa de canto fazendo várias ligações e anotações em seu tablet. Às vezes, chegava algum amigo para conversar rapidamente. Ficava pouco tempo e ia embora.
Cibele, mestre na arte de coquetéis, às vezes lhe perguntava se ele queria algum drink diferente. Ele sempre respondia com olhar ao longe, entre uma tragada e outra de cigarro. A verdade é que ele mal sabia da existência da simpática bartender.
— Como ele é lindo. Eu só o vejo aqui. Nunca vi na rua – disse Cibele à sua colega Solange.
— Pois eu acho ele muito estranho. Os amigos que chegam para sentar com ele parecem que saíram da página policial. Acho que esse cara não é do bem. Fala sério: esse cara nem sabe que você existe! Você deveria dar uma chance ao Ernesto, este sim é do bem – respondeu Solange balançando a cabeça.
— Você está enganada: a cartomante me disse que o amor da minha vida seria um homem bonito e forasteiro — falou Cibele mexendo no cabelo na esperança de ser notada por seu alvo.
O tal homem chamava-se Jordão e andava sempre bem vestido.
Uma noite, quando ele já estava estacionando o carro em frente ao bar de sempre recebeu uma ligação:
— Cara, fiz a entrega dos “doces e balas” conforme combinado. Descobrimos que temos um infiltrado entre nós. Talvez o outro bando já saiba do “presunto”. Está com ele ainda?
— Sim, não tive tempo de fazer a desova – comentou Jordão coçando o queixo.
— Então, dá um jeito, consegue um álibi. Não sabemos ao certo se há também alguém da polícia entre nós – disse o comparsa.
Jordão desligou o celular. Mordeu os lábios, apreensivo. Alterou o horário de seu celular e de seu notebook para duas horas atrás.
Entrou no bar. Cibele sentiu o perfume do homem perto do balcão. Ele sorriu, pediu um Blood Mary à Cibele e que lhe acompanhasse à mesa.
A bartender caprichou no drink, fez uma jogada de cabelos e foi caminhando sinuosamente até a mesa de Jordão.
— Sente-se – disse ele com ar conquistador.
— Gostaria, mas não posso, estou em horário de trabalho – respondeu Cibele em tom de lamento.
— Venha, sente-se um minuto aqui. Seu drink está tão bonito que merece uma foto – pediu Jordão já pegando o celular.
— Foto? Eu nem estou arrumada…
— Não precisa, você já é bonita por natureza. Tire rapidamente seu avental que nem parecerá que você está trabalhando.
Cibele, sorriu feliz. Finalmente, o homem que tanto admirava estava lhe dando atenção. Tirou rapidamente o avental e ficou com a roupa que costumava sair à rua. Sentou ao lado de Jordão. Jordão passou o braço por cima e pediu para outra garçonete tirar a foto dos dois. Feito isso, já postou a foto com Cibele na rede social. Para todos os efeitos a foto estava sendo postada às 22h.
Cibele, feliz, nem achou estranha a mudança radical de Jordão.
— Hoje haverá uma festa muito concorrida na cidade, será seguida de show. Você quer ir comigo? — disse Jordão aproximando-se da moça como estivesse prestes a lhe dar um beijo.
— Bem.. só se eu pedir para uma colega cobrir meu horário. Posso dizer que tive uma “dor de cabeça” – disse a moça toda faceira.
— Isso, vai ser ótimo para nos conhecermos melhor – comentou Jordão.
A moça saiu radiante ao encontro de sua colega Solange, que aceitou o favor mesmo estando contrariada.
Enquanto isso, Jordão enviava uma mensagem para seu comparsa dizendo que “o peixe mordeu a isca.”
Retocou a maquiagem, ajeitou os cabelos no banheiro e lá estava Cibele pronta para sair com Jordão.
Foram até o carro. Como a festa começaria mais tarde, resolveram passar primeiro em um movimentado fast food da cidade. O objetivo era ser visto na companhia da moça.
Cibele não percebeu nada. Durante o rápido jantar entre batatas fritas e hambúrgueres foi surgindo uma afinidade que espantou até mesmo o calculista Jordão.
Pela janela da lanchonete, era possível ver os primeiros raios que indicavam chuva para as próximas horas.
Na saída do restaurante, já dentro do carro, ouviram um forte estrondo. O carro que estava atrás deles bateu de tal forma que amassou a traseira do carro e abriu o porta-malas.
Num reflexo, Jordão e Cibele saem do carro para ver o aconteceu.
Jordão grita:
— Fique dentro do carro.
Aflita e com o barulho dos raios, Cibele não ouve.
O homem que bateu o carro custa a sair porque tem que parar a briga de seus dois filhos que estão no banco de trás.
Jordão fala ao homem que não foi nada. que seu próprio seguro resolverá. O homem coça a cabeça surpreso, mas não insiste, afinal livrara-se do conserto.
Quando Jordão vira seu rosto para falar com Cibele, ela está parada com os olhos esbugalhados e sem fala. Ele olha para o porta-malas aberto e percebe que ela viu o cadáver.
— Entra já para o carro – falou ele em tom ríspido.
— Por favor, não faça nada comigo, eu prometo não contar nada.
Jordão pega o caminho que leva à saída da cidade.
— Para onde estamos indo? Eu quero descer – disse Cibele gritando.
— Cala essa boca, que eu preciso pensar em algo… – disse ele olhando pelo espelho retrovisor.
– Estamos sendo seguidos.
Cibele chora ainda mais.
O carro que está os seguindo começa a atirar e acerta os pneus do carro onde estão Cibele e Jordão.
Este é obrigado a parar o carro e pega o revólver que está no porta-luvas e começa a atirar também. Cibele aproveita, sai do carro e corre em direção ao mato que cerca a estrada. Neste instante, além dos raios começa a chover. Cibele vira-se e vê uma chama enorme vindo da direção de onde havia fugido. Corre ainda mais. Finalmente, encontra um bar de beira de estrada onde há um taxista que aceita levá-la de volta à cidade.
Dois dias depois sem ter contado a ninguém sobre o ocorrido abre o jornal e lê a notícia:
“Encontrados na estrada km “X”, dois corpos em veículo carbonizados”.

Leticia A. Ucha

Posted in: Notícias.
Last Modified: junho 30, 2016